Frente de movimentos sociais precisa dialogar com a classe média, defende militante

São Paulo – A Consulta Popular é uma das entidades que participa da formação da Frente Brasil Popular – lançada neste sábado (5) em Belo Horizonte. Seu coordenador, Ricardo Gebrim, considera que as entidades devem convergir para uma plataforma comum em defesa de reformas populares e da democracia. Mas será preciso dialogar com a classe média, compreender a insatisfação dessa parcela da população e convencê-la da necessidade de se avançar em relação às conquistas sociais dos últimos dez anos. "Essa é uma questão decisiva", alerta Gebrim, ao ressaltar que a frente é composta por setores diversos e não terá objetivo eleitoral.
O encontro deste sábado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais deve reuniu mais de 1 mil representantes de movimentos sociais, organizações religiosas e centrais sindicais. Os movimentos querem estabelecer uma pauta mínima e consensual. O documento foi construído com base em seis pontos: defesa dos direitos dos trabalhadores, defesa dos direitos sociais, da democracia, da soberania nacional, dos processos de integração latino-americana – como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e o Mercosul – e luta por reformas estruturais.
Entre as principais reformas propostas estão a política, a tributária, do poder judiciário e das comunicações. Para Gebrim, a reforma do sistema de impostos é uma das principais bandeiras para unir os setores médios e a classe trabalhadora. "Nós temos um dos mais injustos sistemas tributários do mundo, em que um cidadão de classe média paga a mesma alíquota que o Jorge Paulo Lemann, dono da Ambev – multinacional do ramo de bebidas –, que figura entre os homens mais ricos do mundo", observa, referindo-se a predominância das tributações sobre o consumo, como o ICMS, e não sobre a renda efetiva das pessoas.
Entre outras entidades, compõem a frente as centrais CUT e CTB, o MST, a Via campesina, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Federação Única dos Petroleiros (FUP), União Nacional dos Estudantes (UNE), Levante Popular da Juventude, Consulta Popular, Marcha Mundial das Mulheres, Associação Juízes pela Democracia, Pastorais Sociais, Central de Movimentos Populares (CMP) e dirigentes de diversos partidos. Acompanhe a entrevista.
Qual o objetivo da Frente Brasil Popular?
A frente não tem objetivo eleitoral, mas de construir uma aliança entre os movimentos sociais e as organizações políticas de longo prazo, que enfrente o conservadorismo e construa um programa popular. Que seja capaz de simultaneamente defender a democracia de qualquer tentativa de golpismo e lutar contra planos econômicos de ajuste fiscal que penalizem o trabalhador.
Muitas pessoas têm ficado afastadas das lutas sociais, não se sentem representadas por partidos ou organizações. A frente pretende retomar o trabalho político com a população?
A unidade dos movimentos é um pressuposto importante para que a gente possa recuperar a ideia de trabalho de base. Se nesse momento nós conseguirmos juntar forças, ações organizativas e no campo das comunicações, desenvolver campanhas conjuntas, isso tem poder para reduzir a fragmentação que as forças populares vivem no momento atual. Com isso poderemos incidir em uma parcela bem maior da população brasileira.
Pretendemos construir a proposta em todos os estados e esperamos atrair para a militância pessoas que hoje não estão inseridas em partidos, movimentos ou organizações. Todos os cidadãos que tenham interesse em participar das lutas populares. E construindo isso nos municípios, nos bairros.
A eleição de 2014 foi uma das mais disputadas da nossa história. A maioria da população votou pela continuidade de um programa desenvolvimentista para o Brasil. O que nós estamos assistindo é que, levantando como problema uma crise econômica que é real, o governo Dilma tem tomado decisões que a afastam dessa agenda de desenvolvimento. Isso tem levado a uma grande frustração na população brasileira. Isso tem uma base real que é a população votar pelo desenvolvimento e ver valer uma agenda que contradiz esse processo.
Setores da classe média que participam das manifestações convocadas pelos grupos reacionários concordam com ideias como educação e saúde públicas gratuitas, por exemplo, discordando da visão neoliberal pregada nos atos. A frente pretende estabelecer um diálogo com os setores médios?
Essa é uma questão decisiva. Esses setores da classe média são aqueles que, nestes últimos 13 anos de gestões de governos petistas, assistiram os mais pobres melhorarem suas condições de vida e os mais ricos dispararem nas suas riquezas. E eles foram os menos atingidos pelas políticas desenvolvidas por esse governo. Eles vivem uma insatisfação difusa, que não se encaixa num único programa político, mas é facilmente captada por aqueles que querem responsabilizar, de forma seletiva, unicamente o governo federal por todos os problemas políticos e econômicos que acontecem no país.
A classe média, sem dúvida, está em disputa. E uma das principais questões para eles é a reforma tributária. Nós temos um dos mais injustos sistemas tributários do mundo, em que um cidadão de classe média paga a mesma alíquota do dono da Ambev – multinacional do ramo de bebidas –, que figura entre os homens mais ricos do mundo.
Se esse sistema injusto e absurdo for devidamente enfrentado pode propiciar que nós consigamos desenvolver outro sistema, que não jogue o peso da crise sobre os trabalhadores mais pobre e a classe média, como também ser capaz de atrair os setores médios para uma proposta que não seja o neoliberalismo, que os afetaria muito mais do que qualquer outro.

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