Mauro Santayana: A pinguela e o estábulo

Os partidos políticos são como os homens. 
Eles nascem, envelhecem, algumas vezes, sem ter sequer crescido, e mudam, também, de posição.
Há outros que conhecem Glória e Poder e depois murcham, fenecem, quando não desaparecem por simples inanição.
Há aqueles que surgem das circunstâncias da hora, da resistência e das barricadas, para fazer História.
Há os que se organizam – ou se reorganizam, vergonhosamente - para impedir que a História se faça, que ela avance, e que com ela caminhem os povos e a Humanidade.
E há aqueles que fazem de tudo para conservar as coisas como estão. Mesmo que se disfarcem do novo, mesmo que se disfarcem de novo, e sob seus estandartes desfilem jovens atléticos de dentes brilhantes, seus olhos serão velhos como a morte, e de sua boca exalará o ódio, a violência e a podridão.
Há os partidos ideológicos. 
E há os que são circunstanciais e os fisiológicos. 
Os que foram formados por uma determinada classe, como as antigas agremiações agrárias, proletárias, industriais. 
E os oportunistas, que não se incomodam em mudar de nome, de marca, de história, como se trocassem de camisa - os que renegam origem e passado em troca de eventuais benesses do momento, sem nenhuma preocupação moral com o amanhã.
O MDB surgiu como uma frente de oposição ao regime militar que chegou ao poder com o Golpe de 1964.
Participou da Campanha das Diretas Já e da eleição de Tancredo Neves para a Presidência da República.
Teve papel fundamental, sob a liderança do Deputado Ulisses Guimarães, na promulgação da Carta Constitucional de 1988.
Depois disso, transformou-se em esteio da governabilidade, foi negociando, com os governos de turno, apoios, em troca de cargos e benesses, e acabou, majoritariamente, transformando-se no que é agora.
Em 1982, acompanhamos, por meio de amigos do Movimento Democrático Brasileiro, a formulação e redação de um documento com o nome Esperança e Mudança.
Um texto que apresentava um programa nacional e desenvolvimentista, soberano e autônomo, que defendia a queda dos juros, o uso estratégico do estado na construção do desenvolvimento, a diminuição da desigualdade e nossa integração com a América Latina.
Agora, 33 anos depois, o PMDB acaba de lançar um documento chamado Uma Ponte para o Futuro, a ser usado, em tese, como base para seu próximo Programa de Governo.
De sua leitura, depreende-se que ele pretende inviabilizar o Estado, diminuir as conquistas sociais, entregar o que resta de patrimônio nacional aos estrangeiros, fazer com que o Brasil saía do BRICS, e vire as costas à América Latina   
Ao lançar esse texto - por mais bem intencionados que possam eventualmente estar alguns de seus autores - a direção do PMDB rompe, definitivamente, com o pouco que ainda existia de seus antigos  compromissos  com o país e com o povo brasileiro.
A legenda escreve um claro, inequívoco,  definitivo atestado de abandono dos ideais que lhe deram origem.
E deixa uma prova incontestável, para a História, de sua rendição e de sua entrega àqueles que, do exterior, cobiçam e pretendem se assenhorear definitivamente do Brasil, de nossos recursos naturais, de nosso mercado interno, de nossa população, de nossas perspectivas de futuro.
No momento em que a China, com 4 trilhões de dólares em reservas internacionais em caixa,  se prepara para assumir – com uma economia majoritariamente estatal e nacionalizada, sem rendição ao discurso único ou ao TPP - a posição de maior economia do mundo; em que Pequim estabelece uma aliança com Moscou para a “construção” e o desenvolvimento de todo um novo continente, a Eurásia, com todas as oportunidades que esse projeto oferece; que o primeiro-ministro hindu – país que acaba de enviar, por méritos próprios, uma sonda à órbita de Marte - é recebido como o líder de uma potência mundial, na Grã-Bretanha; que o Brasil constrói com a Suécia uma nova geração de caças supersônicos para sua Força Aérea e forja o casco de seu primeiro submarino atômico; boa parte da atual geração de brasileiros se acovarda e se submete, entusiasta e pateticamente, – com base em um discurso tão frouxo, quanto mentiroso e hipócrita - à acoplagem secundária e abjeta da quinta maior nação do mundo ao projeto de domínio “ocidental”, como um mero mercado de produtos e serviços e fornecedor de commodities, defendendo o abandono do projeto do BRICS e de nossa liderança na América Latina, para fazer o país retornar, inapelavelmente, em pleno século XXI, à condição de colônia.
O que o Brasil precisa, neste momento – como no momento da redemocratização - é de um programa de união nacional, desenvolvimentista e socialmente justo, que estabeleça um caminho próprio para o país, em um novo mundo cada vez mais desafiante, multipolar e competitivo.
De um projeto para a construção de uma nação soberana e forte - que nas áreas de defesa e de infra-estrutura e de energia já está em andamento - e não de uma pinguela que nos encaminhe como cordeiros para o estábulo de nossos novos senhores de Washington e de Bruxelas. Por Mauro Santayana - Carta Maior.

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