Chico Buarque: “O compositor e os arruaceiros”

Por Plínio Bortolotti - blog
Esta primeira coluna de 2016 talvez devesse começar desejando feliz Ano Novo aos leitores (o que estimo), ou fazendo um balanço do ano que passou, mas me arrisco a falar de uma assunto que possivelmente será considerado de pouca importância ou “velho”, devido à velocidade cibernética que toma conta da vida hodierna (pelo menos arranjei um jeito de usar essa palavra).
Sim, vou comentar o famoso vídeo em que o compositor Chico Buarque confronta um bando de moleques que se achou no direito importuná-lo e xingá-lo no meio da rua, devido à simpatia dele pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Até agora os cachorros loucos só haviam assediado militantes de carteirinha do PT, não respeitando nem mesmo o ambiente sagrado de um hospital, agora estão também atacando qualquer um que ouse expor suas ideias publicamente.
O fato deixou mais claro para mim uma ideia que já fermentava em minha mente: o que incomoda a “elite branca” (crédito para o ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo) não é exatamente a “roubalheira do PT”, porém, aquilo que está em seu registro de nascimento (depois de ter perdido suas características iniciais permanece ainda a liturgia formal): um partido dos de baixo, dos operários, das Comunidades Eclesiais de Bases e de seus pobres das periferias.
A “roubalheira” do PT é apenas uma desculpa, pois integrantes de outros partidos fazem igual. Estão aí o PSDB e o PMDB – e mais de uma dezena de pequenos partidos, incluindo as legendas de aluguel – para confirmar a minha tese.
E que os irrita não são propriamente os (muitos) erros do PT, incluindo a roubalheira, porém os seus acertos: Bolsa Família, política de cotas, Universidade para Todos, aumento do salário mínimo acima da inflação, ascensão da chamada nova classe média.
Bolsa Família: “Para sustentar vagabundos”; política de cotas: “Sou a favor da meritocracia”; aumento do salário mínimo: “Vai tirar a competitividade do empresariado”; ascensão dos pobres: “Aeroporto agora virou rodoviária”.
É mera coincidência que os defensores do impeachment, por causa da “roubalheira do PT” e devido às “pedaladas fiscais” de Dilma sejam os mesmos – em sua maioria – que esgrimem argumentos como os que anotei entre aspas do parágrafo anterior?
Deve ser muito duro para pessoas desse quilate ver sujeito branco, de olhos azuis e bem sucedido – um “igual” a eles – defender o PT, o representante da ralé. Tanto é que um dos vagais lamenta: “Todo mundo era teu fã, Chico”. O outro diz que o compositor é “um merda”, por apoiar o PT. Durante o entrevero, o cantor permaneceu calmo e falando baixo. Uma lição de elegância aos arruaceiros.
Ao que diz que o “PT é bandido”, Chico responde sorrindo: “Eu acho o PSDB bandido, e aí?” Como ele sabe lidar com as palavras, a frase não deve ser entendida em seu sentido literal. O escritor deu uma sutil lição ao seu interlocutor (porém, duvido que o bruto algum dia vá entendê-la). O que Chico quis dizer, creio, é que aquele caminho era um interdito ao diálogo. O sentido foi o seguinte, interpreto: “Entenda meu amigo, é impossível conversar desse modo, o diálogo somente será possível em termos civilizados”.

Comentários

terezinha Pagoto disse…
Grande Chico, sempre o admirei... e agora o venero. Sabedoria e elegância não falta a esse cidadão...parabéns....