Atos nas ruas - para além dos números

Cada vez que eu me deparo com a discrepância entre os números fornecidos pela Polícia Militar, pelos institutos de pesquisa e pelos organizadores desses eventos de rua, lembro de uma vez ter ouvido alguém evitar uma polêmica desse tipo dizendo algo bastante sábio:
"Não faço ideia de quantas pessoas eram, mas tinha gente pra caramba."
As manifestações de sexta-feira foram assim. Tinha gente pra caramba. Pobres e ricos, negros e brancos, crianças e idosos, petistas e não petistas. "Não dava para não vir dessa vez", disse um manifestante que não vota no PT nem aplaude a presidenta Dilma.
Na GloboNews, uma comentarista explicou que, no domingo, as ruas tinham sido ocupadas por cidadãos, enquanto na sexta-feira, quem tinha ido as ruas eram militantes. Duplo equívoco. O primeiro deles, e mais preocupante, é enxergar a política por uma lente segundo a qual militantes não são cidadãos. O segundo equívoco foi tornar pública, num programa de TV, uma visão preconceituosa, como se aqueles que foram se manifestar, em tantas cidades, em tantos lugares, fossem cabos eleitorais, pagos pelo partido ou coisa parecida. Uma visão discriminatória que não cabe numa democracia, muito menos num momento de polarização como este.
Ao microfone, Lula matou a charada: "Quem está aqui não está porque teve metrô de graça, porque foi convocado pelos meios de comunicação a semana inteira", disse o ex-presidente. "Vocês estão aqui porque sabem o valor da democracia".
Em tempo: tenho a sensação de que havia bem mais de 95 mil pessoas na Paulista, numa sexta-feira. Um volume de cidadãos, militantes ou não, que nos permite recobrar o entusiasmo.
Por Paulo Teixeira.

Comentários