Com derrota do terceiro turno, governo pode adotar novo programa econômico

O próprio setor empresarial vai se convencendo de que não há saídas rápidas e fáceis para a atual recessão econômica, mesmo com o impedimento de Dilma Rousseff ou convocação de eleições gerais
por Marcio Pochmann
Os governos liderados pelo petismo se mostraram surpreendentemente eficientes no trato de momentos turbulentos, nem sempre verificado nas situações de relativa calmaria. Em decorrência disso, o possível e necessário salto reorganizativo do segundo governo Dilma deve ocorrer mediante a derrota ao imediato terceiro turno imposto, sobretudo, pelos partidos que perderam as últimas quatro eleições presidenciais.
Inicialmente cabe mencionar que as principais medidas de reorientação governamental, especialmente na condução da política econômica, se deram em meio à gravidade das crises do mensalão, em 2005, e da econômica de dimensão global, em 2008. A calmaria relativa observada nos períodos de 2003 a 2004 e de 2011 a 2013 não foi acompanhada de positivas transformações na política econômica vigente.
A constituição do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) enquanto novo bloco de amplos investimentos na infraestrutura nacional constituiu resposta audaciosa aos anos anteriores de baixo dinamismo econômico e à forte turbulência na esfera política que ameaçou significativamente a continuidade do próprio governo petista. Do mesmo modo, a inovadora resposta econômica por meio das políticas anticíclicas de redução na taxa de juros, desvalorização cambial, fortalecimentos dos bancos públicos, elevação dos investimentos estatais e ampliação do gasto social permitiu que o Brasil saísse mais cedo da crise de dimensão global há 8 anos.

Uma ousada resposta de política econômica à crise política atual abriria a possibilidade de reversão imediata e profunda das expectativas recessivas da sociedade. De certa forma, o próprio setor empresarial vai se convencendo de que não há saídas rápidas e fáceis para a atual recessão econômica diante do impedimento de Dilma ou da convocação de novas eleições gerais.
A solução menos incerta, neste sentido, seria a recomposição política em torno de um novo programa econômico capaz de superar a recessão e recolocar o País na trilha da ampliação dos investimentos. Do contrário, a continuidade recessiva ameaça impor o encolhimento próximo de 10% do Produto Interno Bruto em apenas dois anos (2015 e 2016), com significativos prejuízos aos empresários e aos trabalhadores.
Tanto assim, que até sócios beneficiados da recessão, como os segmentos especulativos e rentistas, percebem que a continuidade acelerada do encolhimento econômico tende a levar a uma crise financeira e bancária de importante proporção. O chamamento ao entendimento em torno dos interesses nacionais que tenha como prioridade imediata o estancamento do processo recessivo e simultânea retomada do crescimento da produção e do emprego tem boa possibilidade de vingar.
O papel chave do ex-presidente Lula parece inquestionável neste sentido. Ademais de agregar credibilidade ao governo da presidente Dilma, assume maior centralidade por sua experiência em conduzir administrações petistas justamente nos períodos de maior turbulência política e econômica.
Mas tudo isso depende, ainda, do posicionamento dos poderes legislativo e judiciário federais, para que o governo Dilma possa ter êxitos na implantação de uma nova e ousada política econômica. O apoio político da sociedade seria revelador de quanto a recessão econômica está castigando os empresários e trabalhadores.

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