Contra outra ditadura, a dos parasitas, Dilma aposta em outra política

Para a presidenta, “governo interino, provisório e ilegítimo” não pode cassar investimentos sociais nos próximos 20 anos e engessar o país
por Hylda Cavalcanti, Marilu Cabañas e Paulo Donizetti de Souza
Naquele 6 de julho em que o advogado José Eduardo Cardozo leria o documento para a comissão do impeachment no Senado não houve pedaladas. "Hoje não deu", diz a presidenta afastada Dilma Rousseff, que anda de bicicleta por cerca de uma hora "quase" todas as manhãs. "Ficamos até mais de duas da manhã escrevendo aquele trem", disse, suportando o cansaço com energia e um tanto de humor.
O dia em que a reportagem foi recebida, no Palácio da Alvorada, foi de muita movimentação no ambiente político. Na hora do almoço, longa conversa com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ouvir "sempre informações importantes". Em meio a uma sucessão de reuniões, Dilma se deu uma pausa para a entrevista, que durou pouco mais de uma hora.
Desligados os gravadores, conversou informalmente por mais meia hora – "Preciso ir para mais uma reunião, mas não estou com vontade..." –, desmentindo com descontração, piadas e comentários impublicáveis sobre sua fama de "má". Naquele momento, não muito longe dali, Temer sofria um revés no Congresso, quando a Câmara rejeitou o regime de urgência para seu pacote de bondades negociado com governadores, orçado em R$ 50 bilhões. A derrota comprovou a tese da presidenta de que a governabilidade não está fácil para ninguém, nem para o "interino, provisório e ilegítimo".
No dia seguinte, ela se encontra com dirigentes de PT, PCdoB e PDT para mapear os próximos passos da reação, enquanto o deputado suspenso Eduardo Cunha (PMDB-RJ) renuncia à presidência da Câmara com vistas a preservar seu mandato e seu poder na Casa. "Cada vez que se dá mais um passo no sentido de afastá-lo melhora o ambiente, cria uma perspectiva favorável ao país", acredita.
Na ainda controversa proposta de consulta popular sobre antecipação de eleições, Dilma não explicita sua posição pessoal, mas deixa nas entrelinhas que a convocação de um plebiscito, sobre eleições presidenciais ou eleições gerais, não precisa ser condição prévia para que os senadores barrem o impeachment.
Para ela, o principal consenso alcançado já será o suficiente: "Restabelecer a democracia, fazer o Brasil voltar a crescer e conter as ameaças a direitos, tanto as efetivas como as virtuais, aquelas que ainda vão ocorrer". E não haverá solução para a crise política sem a participação da sociedade e sem a abertura de um debate sobre reforma política.
Sobre o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que teria sido cogitado para sua equipe, ela não desconversa. Observa que é pessoa qualificada, mas que depende de para qual projeto trabalha. No governo Lula, de 2003 a 2010, foi bem e ajudou. No governo do "interino, provisório e ilegítimo", vai mal. "E em meu governo ele nunca esteve."
A presidenta considera grave a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, que restringe gastos com saúde e educação "não por um ano, mas por 20 anos" – praticamente o tempo que durou a ditadura imposta pelo golpe anterior, o de 1964. "O que se gastou ainda não é suficiente para o Brasil ser um país que tenha um padrão internacional equivalente a países do nosso nível médio de renda", afirma.
Para ela, a tese é trágica e burra. "Ninguém vai me convencer que uma sociedade que exclua as pessoas, que condene as pessoas à miséria, que transforme certas questões básicas da civilização, como o acesso à educação, é uma sociedade em que as pessoas queiram criar seus filhos. Não acredito."
Apesar das dificuldades, garante estar confiante. Está previsto para entre 22 e 26 de agosto – na média, como ela mesma observa, em 24 de agosto, dia do suicídio de Getúlio Vargas – o julgamento final do processo no Senado. Desta vez, afirma, a democracia irá renascer.
Como foi seu encontro com o ex-presidente Lula hoje?
Nós sempre nos vemos. Conversar com o presidente Lula é sempre bom, porque é uma pessoa interessadíssima nos destinos do Brasil. Ele vem sempre com uma agenda forte de luta e perseverança. Nós teremos algumas agendas juntos, mas não está ainda claro qual dia será nem onde será. Nós estamos com uma expectativa extremamente positiva para reverter esse processo de impeachment, que consideramos fraudulento e golpista.
E obviamente que o presidente Lula pode dar uma grande contribuição, na medida em que ele tem uma enorme capacidade de interlocução e diálogo com vários setores. Ele me disse que fará viagem bastante intensa no Nordeste. Vai fazer um conjunto de reuniões políticas, nas capitais e no interior do Ceará e Pernambuco.
O presidente Lula tem todo o respaldo na medida em que é, talvez, um dos presidentes do Brasil que mais agiu para colocar o Nordeste como prioridade nas políticas do governo que ele começou e que eu continuei.
Falando em viagem, e essa arrecadação via internet, organizada por suas amigas Guiomar Lopes e Celeste Martins, que já ultrapassou R$ 700 mil?
Nós tivemos a proibição de que eu viajasse nos aviões da FAB. Essa foi uma prática sistemática do governo provisório interino ilegítimo: impedir que eu me manifestasse. Queriam que eu ficasse presa aqui no Palácio da Alvorada. E agora fizemos essa arrecadação (a campanha começou em 29 de junho ultrapassou R$ 710 mil em dez dias).
Foram companheiras minhas, com os quais eu dividi um momento difícil da minha vida, que foi a prisão, que abriram essa campanha de solidariedade, essa jornada da democracia. Arrecadamos recursos suficientes para garantir que eu consiga viajar e me movimentar pelo país. Vamos conseguir, também, com isso, a defesa da democracia, a denúncia do golpe, conversar sobre as perspectivas de futuro.
Número 119,  
ENTREVISTA
Contra outra ditadura, a dos parasitas, Dilma aposta em outra política
Para a presidenta, “governo interino, provisório e ilegítimo” não pode cassar investimentos sociais nos próximos 20 anos e engessar o país
por Hylda Cavalcanti, Marilu Cabañas e Paulo Donizetti de Souza publicado 11/07/2016 13:57, última modificação 11/07/2016 15:18
SÉRGIO AMARAL/RBA
Dilma Rousseff
Dilma: Restabelecer democracia, fazer o Brasil voltar a crescer e conter ameaças a direitos – as efetivas e as que ainda vão ocorrer
“Ninguém me convence que uma sociedade que exclua pessoas, as condene à miséria e renegue questões básicas da civilização, como acesso à educação, é uma sociedade em que as pessoas queiram criar seus filhos”
Brasília – Naquele 6 de julho em que o advogado José Eduardo Cardozo leria o documento para a comissão do impeachment no Senado não houve pedaladas. "Hoje não deu", diz a presidenta afastada Dilma Rousseff, que anda de bicicleta por cerca de uma hora "quase" todas as manhãs. "Ficamos até mais de duas da manhã escrevendo aquele trem", disse, suportando o cansaço com energia e um tanto de humor.
O dia em que a reportagem foi recebida, no Palácio da Alvorada, foi de muita movimentação no ambiente político. Na hora do almoço, longa conversa com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ouvir "sempre informações importantes". Em meio a uma sucessão de reuniões, Dilma se deu uma pausa para a entrevista, que durou pouco mais de uma hora.
Desligados os gravadores, conversou informalmente por mais meia hora – "Preciso ir para mais uma reunião, mas não estou com vontade..." –, desmentindo com descontração, piadas e comentários impublicáveis sobre sua fama de "má". Naquele momento, não muito longe dali, Temer sofria um revés no Congresso, quando a Câmara rejeitou o regime de urgência para seu pacote de bondades negociado com governadores, orçado em R$ 50 bilhões. A derrota comprovou a tese da presidenta de que a governabilidade não está fácil para ninguém, nem para o "interino, provisório e ilegítimo".
No dia seguinte, ela se encontra com dirigentes de PT, PCdoB e PDT para mapear os próximos passos da reação, enquanto o deputado suspenso Eduardo Cunha (PMDB-RJ) renuncia à presidência da Câmara com vistas a preservar seu mandato e seu poder na Casa. "Cada vez que se dá mais um passo no sentido de afastá-lo melhora o ambiente, cria uma perspectiva favorável ao país", acredita.
Na ainda controversa proposta de consulta popular sobre antecipação de eleições, Dilma não explicita sua posição pessoal, mas deixa nas entrelinhas que a convocação de um plebiscito, sobre eleições presidenciais ou eleições gerais, não precisa ser condição prévia para que os senadores barrem o impeachment.
Para ela, o principal consenso alcançado já será o suficiente: "Restabelecer a democracia, fazer o Brasil voltar a crescer e conter as ameaças a direitos, tanto as efetivas como as virtuais, aquelas que ainda vão ocorrer". E não haverá solução para a crise política sem a participação da sociedade e sem a abertura de um debate sobre reforma política.
Sobre o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que teria sido cogitado para sua equipe, ela não desconversa. Observa que é pessoa qualificada, mas que depende de para qual projeto trabalha. No governo Lula, de 2003 a 2010, foi bem e ajudou. No governo do "interino, provisório e ilegítimo", vai mal. "E em meu governo ele nunca esteve."
A presidenta considera grave a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, que restringe gastos com saúde e educação "não por um ano, mas por 20 anos" – praticamente o tempo que durou a ditadura imposta pelo golpe anterior, o de 1964. "O que se gastou ainda não é suficiente para o Brasil ser um país que tenha um padrão internacional equivalente a países do nosso nível médio de renda", afirma.
Para ela, a tese é trágica e burra. "Ninguém vai me convencer que uma sociedade que exclua as pessoas, que condene as pessoas à miséria, que transforme certas questões básicas da civilização, como o acesso à educação, é uma sociedade em que as pessoas queiram criar seus filhos. Não acredito."
Apesar das dificuldades, garante estar confiante. Está previsto para entre 22 e 26 de agosto – na média, como ela mesma observa, em 24 de agosto, dia do suicídio de Getúlio Vargas – o julgamento final do processo no Senado. Desta vez, afirma, a democracia irá renascer.
Como foi seu encontro com o ex-presidente Lula hoje?
Nós sempre nos vemos. Conversar com o presidente Lula é sempre bom, porque é uma pessoa interessadíssima nos destinos do Brasil. Ele vem sempre com uma agenda forte de luta e perseverança. Nós teremos algumas agendas juntos, mas não está ainda claro qual dia será nem onde será. Nós estamos com uma expectativa extremamente positiva para reverter esse processo de impeachment, que consideramos fraudulento e golpista.
E obviamente que o presidente Lula pode dar uma grande contribuição, na medida em que ele tem uma enorme capacidade de interlocução e diálogo com vários setores. Ele me disse que fará viagem bastante intensa no Nordeste. Vai fazer um conjunto de reuniões políticas, nas capitais e no interior do Ceará e Pernambuco.
O presidente Lula tem todo o respaldo na medida em que é, talvez, um dos presidentes do Brasil que mais agiu para colocar o Nordeste como prioridade nas políticas do governo que ele começou e que eu continuei.
Falando em viagem, e essa arrecadação via internet, organizada por suas amigas Guiomar Lopes e Celeste Martins, que já ultrapassou R$ 700 mil?
Nós tivemos a proibição de que eu viajasse nos aviões da FAB. Essa foi uma prática sistemática do governo provisório interino ilegítimo: impedir que eu me manifestasse. Queriam que eu ficasse presa aqui no Palácio da Alvorada. E agora fizemos essa arrecadação (a campanha começou em 29 de junho ultrapassou R$ 710 mil em dez dias).
Foram companheiras minhas, com os quais eu dividi um momento difícil da minha vida, que foi a prisão, que abriram essa campanha de solidariedade, essa jornada da democracia. Arrecadamos recursos suficientes para garantir que eu consiga viajar e me movimentar pelo país. Vamos conseguir, também, com isso, a defesa da democracia, a denúncia do golpe, conversar sobre as perspectivas de futuro.
Nós estamos lutando para conseguir que eu volte. Queremos restabelecer a democracia, fazer o Brasil voltar a crescer e restabelecer todos os direitos e as ameaças a direitos, tanto as efetivas como as ameaças virtuais, aquelas que ainda vão ocorrer. Por exemplo, impedir que eles congelem do ponto de vista do gasto real o que vai ser despendido em educação e saúde. É um absurdo, em um país como o nosso.
O DEM quer questionar essa campanha na Justiça, mas ao mesmo tempo o Ministério Público está cobrando o presidente do partido, senador José Agripino Maia (RN), por ter recebido quase o dobro do teto estabelecido para servidor público ao acumular salário como senador e aposentadoria como governador. Somando os anos todos em que ele recebeu dinheiro dobrado, daria algo próximo de R$ 1 milhão. O que a senhora acha de tudo isso?
A velha prática do faça o que eu digo e esqueça o que eu faço. É uma hipocrisia muito grande. Esse processo de arrecadação tem a ver com a medida inicial do governo provisório de cortar minhas viagens com aviões da FAB. E ela me permite viajar e ter um contato com a população.
O crowdfunding poderia inspirar um novo modelo de financiamento de campanhas?
Não acho que vá servir de referência para as próximas campanhas eleitorais, mas se for vai ser bom, porque será uma forma mais democrática de financiamento. A gente tem tido um resultado muito bom e eu acho que tem a ver com o fato de que um segmento importante da população brasileira está acompanhando o que está acontecendo, tem noção do golpe e está disposta a defender a democracia, então, a gente agradece muito.
Houve, de todas estas medidas do governo provisório de Temer, alguma que mais a chocou?
Olha, primeiro ele tomou várias medidas absurdas e depois voltou atrás... Mas essa, que é uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC 241), é gravíssima. Primeiro, porque não é uma medida que dura um ano ou dois anos. Ela dura 20 anos. Portanto, vai passar por cinco presidentes. É uma pretensão absurda um governo comprometer o programa político de presidentes futuros em duas áreas estratégicas, como saúde e educação. É engessar.
Eles defendem que o teto do gasto em educação e saúde vai ser congelado – congelado eu falo sempre do ponto de vista real, porque eles vão corrigir pela inflação. Então, a consequência é que vai ter um teto de gasto. Daí pra frente, todas as pessoas que demandarem educação e saúde, crianças, jovens e adultos que querem estudar, querem ser atendidas no sistema de saúde, vão ser prejudicadas. Vai aumentar o número de pessoas que precisam de atendimento nesses setores. Logo, vai cair o gasto por pessoa.
É por isso que estão chamando de PEC da morte?
Você pode chamar também de PEC da doença, ou PEC do sofrimento. Agora, eu acho que no caso da educação também é gravíssimo, porque você precisa da educação por motivos estratégicos. Primeiro, a educação tem o condão, a capacidade de tornar perene uma conquista que é a melhoria de vida, a retirada de 37 milhões de pessoas da extrema pobreza.
E a ida dessas pessoas que já estavam na pobreza para a classe média, quase 40 milhões. Como você torna isso permanente? Ampliando a qualidade da educação no país, da creche à pós-graduação, com isso você terá empregos melhores, uma capacidade de geração de renda muito maior e as famílias vão ter estabilidade para ter uma vida melhor.
Além disso, você precisa de educação para sustentar toda ciência e tecnologia de um país. E permitir que as empresas façam inovação. A educação é base disso, é condição para que um país dê seu salto de desenvolvimento, entre na economia do conhecimento.
O ministro Henrique Meirelles afirmou recentemente que o país já gastou muito com saúde e educação. O estranho é que ele teria sido cogitado pela senhora para integrar a sua equipe, primeiro na formação do segundo governo, depois para substituir o Joaquim Levy. Isso é verdade?
É lamentável ele ter dito isso. Eu acho que o ministro Meirelles teve uma participação importante nos dois governos do presidente Lula. Ele é uma pessoa qualificada, mas obviamente é um ministro dentro de um conjunto e de uma certa concepção de governo.
Nessa concepção atual de governo ele defendeu isso, que o país gastou muito. Eu acho até estranho, porque gastou também no período dele, porque era presidente do Banco Central, e o Banco Central é um elemento fundamental da equipe econômica. Mas ele não integrou o meu governo.

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