De volta para o passado

Digamos que a crise bateu a sua porta. Um rápido ajuste se faz necessário no orçamento doméstico, para adequá-lo à queda da renda familiar e permitir o sono tranquilo de seus credores, com a perspectiva de que continuarão recebendo seus juros exorbitantes, enquanto rolam as dívidas de empréstimos contraídos em tempos de vacas magras. Será que você tomaria a radical decisão de reunir a família e congelar as despesas pelos próximos vinte anos para dar satisfação ao agiota que te socorreu com o objetivo de lucrar?
Condenaria o filho que ainda não entrou em idade escolar a ficar fora da escola até a vida adulta para não aumentar as despesas? Não gastaria com remédios, caso alguém da família adoecesse, para não prejudicar os ganhos já abusivos de seu credor? Suspenderia por 20 anos, até melhor juízo, a sonhada reforma ou eventual mudança do imóvel da família, em razão das circunstâncias de hoje?
Embora seja simplória e insuficiente a analogia do orçamento doméstico com a complexa teia de relações econômicas que interfere nas contas públicas, não é preciso ser especialista para repudiar a intenção do governo golpista com a PEC nº 241, cujo efeito imediato é a paralisação das políticas sociais num Brasil ainda tão profundamente desigual.
Como têm afirmado muitos analistas, sua eventual aprovação é uma autêntica volta ao passado, com a cruel limitação de não avançarmos mais em direção ao estado de bem estar social preconizado pela Constituição de 1988. Como ficam, por exemplo, as metas do Plano Nacional de Educação, dentre elas a de alcançar 10% do PIB de investimento na área em 10 anos, atender 50% das crianças de 0 a 3 anos em creches, 100% das de 15 a 17 anos em escolas e colocar 33% dos jovens entre 18 e 24 anos em cursos superiores?

E o ambiente econômico? Permanecerá constante, sem crescimento e melhora da receita pública por duas décadas, a justificar o aperto de hoje? Parece ser nisso que apostam nossos “qualificados” representantes. Aqueles mesmos que votaram pela mulher, pelos filhos e pela igreja há alguns meses...
Curiosamente, 366 votos abriram o caminho para aprovação da matéria na Câmara dos Deputados. Apenas um a menos do que os 367 que rasgaram a Constituição ao aprovar a instauração de um processo de impedimento sem crime, de presidenta recém-eleita pelo voto popular. A consequência direta dos golpes contra a democracia é sempre essa: o prejuízo da maioria em nome dos ganhos de alguns. 
A PEC e suas repercussões na vida de cada um e no futuro do País é tema de debate neste sábado, a partir das 8h30min, na Casa Vermelha (Avenida da Universidade, 2197). Os professores da UFC Flávio Ataliba e Ana Maria Fontenele conduzem a atividade. É aberto a todos. Ainda há tempo para resistir. 
Guilherme Sampaio - vereador de Fortaleza 
guilherme13234@gmail.com

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