Rafael Tomyama: Defender e mudar o PT

Mudar o PT depende da convicção e do engajamento de centenas de milhares de militantes petistas cujo coração é vermelho e bate do lado esquerdo do peito
A tendência petista Articulação de Esquerda surgiu em 1993, como reação contra a “domesticação” do PT, termo empregado para designar tudo aquilo que nos afasta das tradições socialistas e revolucionárias, como é o caso da estratégia de conciliação de classes, da chamada “política de centro-esquerda” e da prioridade dada à luta institucional-eleitoral.
Combatemos estas políticas desde o início. Apontávamos que elas nos distanciariam das reformas estruturais democrático-populares e nos aproximariam de pontos de vista social-liberais ou até mesmo neoliberais e acabaria por enfraquecer nossa força social.
Durante algum tempo, a estratégia de conciliação, a “política de centro-esquerda” e a prioridade institucional/eleitoral não impediram – e em vários casos certamente auxiliaram – nossas vitórias nas disputas executivas e legislativas. Entretanto, na condição de quem sempre contribuiu para construir as vitórias eleitorais do PT, a Articulação de Esquerda também buscou sempre alertar para os riscos embutidos naquela política e defender a necessidade de construir outra estratégia.
Hoje, a estratégia de centro-esquerda e institucional está esgotada. Duas provas disso são: a) esta estratégia de centro-esquerda pavimentou o caminho para uma aliança de centro-direita contra a esquerda; b) esta estratégia institucional pavimentou o caminho para a redução de nossos espaços institucionais.
O esgotamento e a derrota da estratégia adotada pelo Partido desde 1995 coincidem, não por acaso, com uma brutal ofensiva reacionária e com a perda de influência do PT na classe trabalhadora. A combinação destes fenômenos ameaça a sobrevivência do PT. E uma eventual destruição do nosso Partido contribuiria para um retrocesso de toda a esquerda, com efeitos dramáticos para a classe trabalhadora brasileira e seus aliados na região e no mundo.
Frente a isto, alguns setores preferem postergar o balanço quanto às práticas políticas e com as concepções teóricas adotadas até aqui pelo Partido. Discordamos disto, por dois motivos. Em primeiro lugar, para termos êxito na defesa do PT será preciso adotar não apenas outra tática, mas também outra estratégia, outro programa e outra conduta cotidiana. Em segundo lugar, se não reconhecermos as causas de nossos problemas atuais, podemos adotar remédios que agravem nossa situação.
Entendemos que a principal de nossas tarefas é contribuir para que a classe trabalhadora brasileira se organize, mobilize e lute em defesa de seus direitos e contra o governo golpista e suas políticas, reforçando a confiança dos trabalhadores e trabalhadoras nas suas organizações de classe e luta.
O 6º Congresso do PT
Para o 6º Congresso, reafirmamos as propostas de diretrizes quanto ao funcionamento e à organização partidária:
a) construir uma política de comunicação de massas – articulando impressos (jornais e revistas), rádio, televisão e redes sociais – voltada a defender as posições da classe trabalhadora, fortalecer os laços com os movimentos sociais, lutar pela ampliação de direitos, amplificar o alcance do programa democrático-popular e socialista na disputa ideológica;
b) reconstruir a rede petista de organizações de base, através da constituição de núcleos do PT nos locais de trabalho, de moradia e de estudo;
c) reorganizar o trabalho de formação, do básico à formação de quadros dirigentes, dando ênfase não apenas a nossa história e a nossas propostas programáticas democrático-populares, mas também aos aspectos político-ideológicos e teóricos indispensáveis à luta da classe trabalhadora pelo poder e pelo socialismo;
d) fortalecer as instâncias partidárias, em detrimento dos centros de comandos paralelos localizados nos gabinetes parlamentares e executivos.
Muda PT
Estamos entre aqueles e aquelas que desejam mudar o PT. Não estamos entre aqueles que falam em mudar do PT, seja por razões estratégicas, seja por puro e simples cretinismo parlamentar. Nem estamos entre os desanimados e pessimistas, posturas que ao fim e ao cabo apenas fragilizam nossa luta.
Mudar o PT depende, em última análise, da convicção e do engajamento de centenas de milhares de militantes petistas cujo coração é vermelho e bate do lado esquerdo do peito. Os que acreditam que “vivemos tempos de guerra” precisam reforçar seu compromisso militante, sua vigilância e a organicidade. Nossa existência só faz sentido se formos capazes de, nesta quadra difícil da vida do Partido e da classe trabalhadora brasileira, contribuir para formular uma política que nos ajude a retomar a caminhada em direção a um Brasil e a um mundo democrático-popular e socialista.
Obs: Síntese adaptada da Resolução do 3º Congresso da tendência petista Articulação de Esquerda, realizado entre os dias 12 e 15 de novembro de 2016, na sede nacional do PT, em São Paulo. O documento na íntegra pode ser acessado no Página 13.
Rafael Tomyama, jornalista de Fortaleza (CE), filiado ao PT-CE desde 1993, membro do diretório estadual do PT-CE, do Coletivo Nacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento do PT e da direção nacional da Articulação de Esquerda, para a Tribuna de Debates do VI Congresso.

Comentários