Brasil, país de orquestras sucateadas

por Jotabê Medeiros - CartaCapital:
A extinção da Banda Sinfônica de São Paulo chama atenção para a triste situação da música instrumental
Na semana passada, a Avenida Paulista, que sempre abriga protestos ruidosos, viu uma manifestação diferente, afinadinha, vestida de casaca. Eram músicos clássicos tocando no meio da avenida em um esforço para que as autoridades paulistas poupassem empregos e mantivessem sua orquestra. Não adiantou: todos os 65 integrantes da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo foram oficialmente demitidos, após 27 anos de funcionamento.
A extinção da Banda Sinfônica, por decisão direta do governo Geraldo Alckmin (PSDB), vinha sendo ensaiada. Outras duas formações clássicas do corpo sinfônico do estado também estavam em vias de ser “descontinuadas”: a Orquestra Jazz Sinfônica e a Orquestra do Theatro São Pedro.
Com a repercussão negativa de acabar com três orquestras de uma só vez, o governo optou por mantê-las, mas revelou ao repórter João Luiz Sampaio, do jornal O Estado de S. Paulo, que pretende fazer cortes de até 20 músicos, demitindo integrantes e inviabilizando seu desenvolvimento (a Orquestra do Theatro São Pedro, por exemplo, ficaria com 32 músicos).
“Com relação aos outros dois corpos estáveis, possíveis ajustes, se houver, serão pautados tecnicamente pelas respectivas direções artísticas, a quem compete especificar o número de músicos necessários, uma vez que este dado não é estabelecido no contrato de gestão celebrado com a Secretaria da Cultura”, informou a pasta, em nota oficial.
A agonia da Banda Sinfônica vinha se arrastando desde meados do ano passado. Criado em outubro de 1989, o conjunto foi se tornando, progressivamente, uma espécie de passagem obrigatória de jovens músicos. A eficácia de sua ação foi medida por uma ex-novata (que se tornaria maestrina da banda), Monica Giardini.

Ela defendeu dissertação de mestrado na Universidade de São Paulo acompanhando a progressão dos jovens da orquestra desde a formação do conjunto até 2005. Monica concluiu que, de todos os que passaram por lá, só 8% não se tornaram músicos profissionais e não foram integrar outros conjuntos. Tanto Monica, ex-maestrina, quanto Marcos Sadao Shirakawa, o atual regente, disseram estar “muito tristes” com a situação da orquestra.
Formação musical em que predominam os instrumentos de sopro e percussão, a Banda Sinfônica apresentou-se em julho, como de hábito, no Festival de Inverno de Campos do Jordão. Mais de 2 mil pessoas assistiram ao concerto, na Praça do Capivari.
Dedicada à criação de novas composições e novos arranjos para seu tipo específico de formação (Philip Sparke, Frank Herzberg, Satoshi Yagisawa, Franco Cesarini e outros), a banda ocupou espaço na música clássica de São Paulo e do Brasil, e acabou ganhando destaque também fora do País depois de participar, em 1997, da 8ª Conferência da World Association for Symphonic Bands and Ensembles (Wasbe), na Áustria.
“A banda não deixou de existir, ela só não está contratada pelo estado”, declarou o secretário de Cultura de São Paulo, José Roberto Sadek. “Àmedida que conseguir algum recurso extra, voltaremos a tentar chamar a banda. É uma questão de gestão cultural muito difícil. Mas é nossa função fazer o melhor possível com o que a gente tem”, disse ele ao jornal O Globo. 
A Banda Sinfônica, entretanto, nunca ficou parada esperando o recurso extra aparecer. Segundo relato dos músicos, eles procuraram os deputados estaduais na Assembleia Legislativa do Estado para garantir um aporte extra no orçamento que lhes garantisse a sobrevida neste ano. Mas foi o próprio Alckmin que fez a opção.
No fim do ano passado, após outro concerto-protesto nos salões da Assembleia Legislativa, os músicos obtiveram uma emenda parlamentar de 5 milhões de reais com os deputados. “Não era a solução definitiva, mas com certeza foi a promessa de um respiro aliviado para negociarmos a continuidade da banda”, escreveram, na página oficial no Facebook.
Entretanto, o governo do estado não honrou o acordo firmado com os parlamentares. O dinheiro da emenda foi contingenciado pelo governador, embora o acerto tenha sido feito pelos deputados Cauê Macris e Fernando Capez, ambos do mesmo partido do governador, o PSDB.
O “adágio” da Banda Sinfônica não é um drama desconhecido das orquestras. Se o leitor abrir o site de uma das mais antigas formações musicais do Brasil, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), fundada em 1940 no Rio de Janeiro, encontra o recado: “A Orquestra Sinfônica Brasileira precisa de sua ajuda para continuar existindo”, e dois números para ligar para doações.
Em 16 de janeiro, os músicos da OSB emitiram uma nota de solidariedade à Banda Sinfônica, ressaltando que seu conjunto “também vive o risco de encerrar as atividades por falta de atenção do poder público”. Acrescenta a nota: “Diante dos desafios econômicos e sociais no Brasil, pôr fim às atividades de uma instituição cultural significa, mais do que adequação de gastos, a aniquilação de um dos pilares da sociedade: a arte.
Durante as maiores crises da história, mesmo em tempos de guerra, os obstáculos foram superados com a presença da arte, componente visceral de uma sociedade que nela vê refletido o sentido de sua existência”.
É uma triste situação para uma orquestra com tamanho prestígio e história. O pianista Arnaldo Cohen tinha 14 anos quando pisou no palco do Theatro Municipal do Rio para tocar o primeiro concerto de Mendelssohn, ao lado da OSB.
Além de Cohen, a orquestra contribuiu para revelar nomes como Nelson Freire e Antônio Meneses e teve colaborações de regentes como Leonard Bernstein, Zubin Mehta, Kurt Sanderling, Arthur Rubinstein, Claudio Arrau e Rostropovich.
Tradicionalmente, as atividades da Fundação OSB são viabilizadas com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro, além de investidores privados. Na semana passada, a nova secretária de Cultura do Rio de Janeiro, Nilcemar Nogueira, reuniu-se com o presidente do conselho da Sinfônica Brasileira, Eleazar de Carvalho Filho.
Nilcemar disse considerar a orquestra “um patrimônio” da cidade e que quer todas as linguagens culturais em diálogo com a nova gestão. “Conversamos sobre parcerias futuras entre a orquestra e a prefeitura”, declarou.
Em todo o País, as notícias são as piores possíveis para a área de música orquestral e instrumental. Mesmo o prestigioso Festival de Campos do Jordão trouxe toda a parte didática para a capital, para economizar recursos.
Em Curitiba (PR), o recém-eleito prefeito Rafael Greca (PMN) cancelou a 35ª edição de um dos mais tradicionais festivais do gênero do Sul do País, a Oficina de Música de Curitiba. Seria entre os dias 7 e 29 de janeiro, e muitos grupamentos e músicos já tinham as passagens compradas para a mostra.
Por conta do que consideram um massacre imposto ao setor, dezenas de músicos de São Paulo criaram o movimento Música pela Democracia, que montou um show coletivo aberto ao público para o sábado, dia 11, no club Jazz nos Fundos, em Pinheiros.
O grupo enxerga um sucateamento deliberado de políticas culturais, segundo um dos seus líderes, o compositor, arranjador e baterista Carlos Ezequiel, que estudou no prestigioso Berklee College americano.
“A área de música instrumental nunca foi objeto de grande atenção do poder público, mas o que nós estamos vendo agora é uma estratégia de desmonte generalizada”, ele diz. “E o que estamos cobrando das autoridades é o cumprimento da Constituição, que assegura o acesso à cultura a toda a população do Brasil. Estão desrespeitando a Constituição.”
Na pauta do movimento, além do recente desmonte de orquestras, festivais e escolas públicas de música, estão questões como o aparelhamento político do Ministério da Cultura, a criação da Lei de Fomento à Música em São Paulo e a revisão da Lei Rouanet e do Procultura, segundo o manifesto dos artistas.
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