Festival de Berlim lembra a perseguição nazista aos ciganos

por Rui Martins – Django, filme de Etienne Comar, na abertura do 67º Festival Internacional de Cinema de Berlim, é um dos raros filmes que abordam a questão da perseguição dos ciganos pelos nazistas. Trata-se de um filme biográfico, biopic na linguagem cinematográfica, contando de maneira romanceada a vida de alguém importante.
Django Reinhardt foi um dos grandes guitarristas europeus dos anos 40 e 50, tendo tocado com os grandes do jazz americano e feito uma tournée com Louis Armstrong pelos Estados Unidos. Apesar de ter dois dedos atrofiados em consequência de um incêndio, era um virtuoso da guitarra e com sua banda tocava swing, blues e principalmente jazz, tendo sido um ícone da música popular em Paris, na época da Ocupação.
No seu momento de maior prestígio, sentindo-se ameaçado por ser cigano, nascido na Bélgica, quando seus pais viajavam pela Europa em roulottes, decidiu fugir para a Suíça. O filme Django deixa em suspenso se o guitarrista foi ou não acolhido pelos suíços, em 1943, mas o diretor Ettiene Comar, falou de uma rápida acolhida, seguida de um retorno à França, para a cidade de Toulon, onde possuía parentes.
Em Toulon, Django permaneceu incógnito, mas retornou a Paris, depois da Libertação quando compôs um Réquiem para seus irmãos ciganos, composto para órgão, orquestra e coro. Essa composição foi executada apenas uma vez, em Paris, e foi dedicada a todos os ciganos massacrados pelos nazistas. A maior parte da partitura se perdeu, porém o diretor do filme, Etienne Comar, obteve uma reconstituição para as cenas finais do filme com fotos de ciganos mortos nos campos de concentração nazistas.
Django não é um filme biográfico típico. Etienne Comar, seu realizador, preferiu colar a imagem de Django no contexto das perseguições contra os ciganos, alvos do mesmo extermínio projetados pelos nazistas contra os judeus. E essa história de perseguição étnica, num momento de guerra, se reveste de grande atualidade. Ao ver os ciganos perseguidos, os espectadores se conscientizam de que hoje o mundo revive um momento de guerra e perseguição, gerador de centenas de milhares de refugiados.
E a história se repete interpretada por outros líderes mundiais no papel dos mesmos personagens. Django não é um filme de entretenimento porque pode provocar má consciência nos espectadores. Fechar a Europa e as Américas aos refugiados? Quem quer ter hoje o papel de Hitler, na nova encenação do drama vivido nos anos 30 pela humanidade? Qual será o papel escolhido por Donald Trump? Fonte: Pletz.

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