Secretaria ocupada é ápice da crise entre Sturm e agentes culturais

por Beatriz Drague Ramos e Filipe Vianna* — CartaCapital
Marcada por falta de diálogo, relação entre secretário de Cultura de Doria e setor azeda de vez após chefe da pasta ameaçar integrante de coletivo.
Quando foi escolhido por João Doria para assumir a Secretaria Municipal de Cultura, André Sturm, ex-diretor do Museu da Imagem e do Som, prometia ser uma das indicações mais coerentes do prefeito eleito para comandar uma pasta. Após seis meses de mandato, o secretário tem mostrado pavio curto, postura que leva até mesmo quem confiava em seu trabalho a pedir sua demissão.
As críticas de agentes culturais a Sturm pela falta de diálogo com o setor têm se acumulado ao longo dos últimos meses. Atingiram seu ápice na quarta-feira 31, quando ao menos 50 integrantes de movimentos e coletivos culturais decidiram ocupar a sede da secretaria para pedir a saída imediata do chefe da pasta.
"Fiquei feliz com a entrada do Sturm, pelo histórico que, gostem ou não, ele teve na cidade", lembra Rafael Ferro, integrante do grupo de teatro Redimunho e um dos participantes da ocupação da Frente Única da Cultura de São Paulo (FUC). "Hoje, penso que o melhor seria sua saída."
Principal incômodo do setor com a pasta da Cultura, o congelamento de verbas da prefeitura para programas soma-se agora à revolta da classe com a atitude do secretário de Doria de atacar de forma destemperada o agente de cultura Gustavo Soares em uma discussão.
Em meio à uma reunião na segunda-feira 29 entre o secretário e Soares para debater a gestão do espaço Movimento Cultural Ermelino Matarazzo, Sturm perdeu a compostura ao ser confrontado. "Vocês querem fazer esse discursinho babaca. A gente não tá conversando. Você é um chato, rapaz!", disse, entre outras grosserias.
Chamado de "desequilibrado" pelo agente, o secretário apelou. "Se falar assim, vou quebrar a sua cara. Isso mesmo, vou quebrar a sua cara." Posteriormente, Sturm reconheceu o erro e pediu desculpas, mas não foi o suficiente para evitar a pressão por sua saída.  
Desde o início do ano, integrantes da FUC têm se manifestado contra o congelamento das verbas da Cultura e contra a privatização de equipamentos públicos. Eles pedem ainda uma participação mais ampla nas decisões da secretaria e a ampliação dos repasses para a área.
"Estamos ocupado a secretaria principalmente contra uma atitude arbitrária e agressiva do secretário, que ameaçou um companheiro nosso, mas estamos organizados desde fevereiro deste ano, assim que surgiu o congelamento de mais de 40% da verba da Cultura", afirma a produtora e pesquisadora Inti Queiroz, integrante da FUC.
Neste ano, a Cultura sofreu um congelamento de 43,5%. No fim de 2016, movimentos culturais defenderam que 3% do orçamento geral fosse para a Cultura, com metade destinada à periferia da cidade, mas a porcentagem não chegou a 1%. O corte é o quarto maior entre as 22 secretarias, apesar do orçamento da Cultura já ser bastante modesto.
A falta de diálogo e impasses nas negociações não são de hoje. Em 21 de março deste ano, o artista popular Aloysio Letra foi à Galeria Olido para uma reunião com Sturm com o objetivo de debater o programa da prefeitura de fomento a grupos de dança. Segundo Letra, o secretário não aceitou sua presença na reunião.
O artista caracterizou a ação como racismo institucional, em carta publicada no blog Negro Belchior. “Já não bastassem todas as arbitrariedades criminosas desta prefeitura, ontem, 21 de Março, dia Mundial de Luta contra o racismo, eu sofri discriminação e fui praticamente expulso de uma reunião pública”.
No mês seguinte, artistas e educadores dos programas culturais Vocacional e o Piá, atuantes na periferia de São Paulo, foram à secretaria para debater com Sturm a redução de 30% dos recursos para ambas as iniciativas.
Enquanto aguardavam o secretário no gabinete para uma conversa, os integrantes dizem ter sido ameaçados de prisão por seguranças por invasão de prédio público. No fim das contas, Sturm não os recebeu, relatam. “Para ele, diálogo deve ser duas coisas: comunicar pessoas por meio do Diário Oficial e aceitar o que ele diz”, diz Juliana Casaut Melhado, integrante do Piá.
Também em abril, o Clube do Choro perdeu sua sede no Teatro da Mocca devido ao congelamento de verbas. Apesar das tentativas de negociação com o secretário, os recursos não foram liberados. Segundo o secretário, o Clube, com cerca de 300 integrantes, não é prioridade na cidade.
No teatro, eram organizadas oficinas culturais, aulas de música e shows com frequência desde 2015. Segundo Yves Finzetto, presidente do Clube do Choro, Sturm não tem condição de continuar no cargo. "Ele já criou uma antipatia com todos os segmentos e está aniquilando completamente os processos de participação da sociedade civil, que foram construídos a duras penas nos últimos anos."
Um dos organizadores do ato em favor das Diretas Já em São Paulo, marcado para domingo 4, o produtor musical Daniel Ganjaman, um dos mais requisitados do País, afirma que episódios como o da briga entre Sturm e Gustavo Soares revelam a necessidade de se debater o papel do Estado na Cultura. "O que a gente vê aqui em São Paulo é um desmonte muito grande", afirma. "O que aconteceu com Sturm ontem (segunda 29) é um exemplo claro dos maus lençóis que a gente se encontra neste momento."
*Colaborou Victória Damasceno

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