Com aumento de imposto, governo admite fracasso e que não quer inflação muito baixa

"BC quer motivo para aumentar a inflação e para isso não tem coisa melhor do que aumentar combustível", diz economista Maria Lucia Fattorelli. Deputado Paulo Pimenta vê falência da política econômica
por Eduardo Maretti, da RBA
Ao promover o aumento da gasolina, via aumento das contribuições PIS e Cofins, o governo está admitindo o fracasso da política monetária. Pior do que isso, na opinião de Maria Lucia Fattorelli, auditora aposentada da Receita Federal e fundadora do movimento Auditoria Cidadã da Dívida, tudo indica que, por trás da medida, esteja a intenção do Banco Central de aumentar a inflação.
“O interesse é turbinar a inflação. Estamos entrando numa deflação por causa da recessão fortíssima, o que é um problema para o Banco Central, que quer continuar pagando os juros abusivos e justificar a taxa de juros alta para controlar a inflação”, diz. “Essa crise está desmascarando isso. O BC quer um motivo para aumentar a inflação e para isso não tem coisa melhor do que aumentar o combustível, que traz o aumento de tudo em cascata.” De acordo com ela, uma inflação em queda muito acentuada causa problemas na atualização monetária paralela que é feita da dívida.
O IPCA de junho de 2017 registrou deflação de 0,23%, a primeira desde junho de 2006. Além da equação inflação-juros, Maria Lúcia vê no atual quadro “um período de inanição total” e um círculo vicioso, já que cada empresa que quebra é menos tributo a ser arrecadado, empregados perdem emprego e deixam de contribuir e de comprar.
“Quanto mais a economia cai, mais desemprego, o que faz cair o comércio, que por sua vez não demanda a indústria. De onde vai sair o dinheiro? Então o governo aumenta a gasolina”, diz a economista. “E o comércio, a indústria, acham que a reforma trabalhista foi boa para eles, que podem diminuir os encargos. Eu quero saber agora quem vai comprar os produtos deles.”
Para ela, é incompreensível que ainda haja empresários “iludidos” com Temer. “Ele está sendo bom só para o setor financeiro, que continua sendo o mais privilegiado do país, como foi em todos os governos anteriores, sem exceção alguma.”
Presidente da Comissão Mista de Orçamento durante o governo da presidenta Dilma Rousseff, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) diz que aumento de imposto que recai sobre preço de combustível é “injeção na veia da inflação”. Pimenta lembra que, quando o governo propôs a PEC do teto de gastos, tanto o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, quanto o presidente Michel Temer, assumiram publicamente que a aprovação da PEC dispensaria a necessidade de aumento de impostos. “Isso for formalizado perante a sociedade. Portanto, aplicaram uma mentira no povo brasileiro e no próprio Congresso. A PEC foi aprovada com esse compromisso.”
Para o parlamentar, o aumento dos tributos revela que a política econômica baseada no controle de gastos e da redução de investimentos falhou. O governo teve que aumentar impostos porque a arrecadação não se realizou, já que a economia está paralisada, avalia. “Tudo isso revela a falência dessa política econômica que o golpe tentou implementar.”
Manifestações de 2013
Pimenta lembra que a Federação das Indústrias do Estado de São Pulo (Fiesp) e a TV Globo, por exemplo, alimentaram o discurso do golpe com base em algumas questões como a dos impostos.
O que remete às mobilizações de junho de 2013. “Aquelas manifestações contra o aumento de 20 centavos do transporte coletivo, as chamadas jornadas de 2013, hoje fica evidenciado que foram patrocinadas. Onde estão os movimentos de rua? Agora não tem o dinheiro que pagou a mobilização, os caminhões, a articulação. Aquilo foi uma mobilização artificial com o objetivo de desestabilizar o governo da Dilma”, afirma Pimenta.
Na sexta-feira, o deputado federal Júlio Delgado disse que o aumento tributário sobre os combustíveis, além do contingenciamento de R$ 5,9 bilhões de despesas não obrigatórias do Orçamento, mostra a dificuldade crescente de Temer.  Para ele, a volta do pato à Avenida Paulista demonstra que “pode haver um abandono, agora do setor empresarial, que ainda sustentava Temer”.

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