O papel decisivo do Partido Bolchevique na Revolução Russa

Na celebre conferência de balanço da Revolução Russa, em 27 de novembro em 1932, em  Copenhague, Dinamarca. Leon Trotsky ressaltou que a revolução não aconteceu  nem por  acaso nem por um ato de  vontade. Como já foi destacado no artigo Desenvolvimento combinado e desigual: “ A chave do enigma da Revolução Russa”, uma apreciação correta da revolução, passa necessariamente por um exame do desenvolvimento desigual e combinado na Rússia, que explica como um pais de capitalismo retardatário a classe operária assume o papel de liderança principal, uma vez que as tarefas democráticas e socialistas estavam misturadas. Além disso, como salientou Lenin, Revolução Russa aconteceu devido a quebra da corrente de dominação imperialista no seu elo fraco, ou seja, no ponto onde as contradições do sistema capitalista se mostravam de maneira mais aguda no contexto da guerra mundial.
Na referida conferência destinada a estudantes social-democratas, Leon Trotski enumerou os fatores  que levaram a Revolução Russa. A compreensão das motivações da revolução passa por uma análise de um complexo processo econômico, cultural e social, que envolveu questões estruturais ( como a estrutura agrária arcaica marcada pelas grandes propriedades, desenvolvimento capitalista com uma burguesia débil e uma classe operaria concentrada, uma autocracia  monárquica em decomposição, a existência de nacionalidades oprimidas pelo império Russo)e conjunturais ( como a experiência revolucionária de 1905 e a eclosão da  Guerra Mundial).
Entretanto, um elemento decisivo para a vitória da revolução foi o papel desempenhado pelo Partido Bolchevique. “ Mas todas estas condições suficientes para que irrompesse a revolução eram, porém, insuficientes para assegurar a vitória da proletariado. Faltava uma oitava condição: o Partido Bolchevique. “  ( Trotski, O que foi a Revolução de Outubro.”)
Em diversas ocasiões de crise política, os trabalhadores participaram de lutas pelo poder, mas “ acostumavam-se a dar  e não em tomar o poder”. Enquanto a burguesia apresenta um histórico no sentido contrario, ou seja “ tomar o poder , e fé-lo muitas vezes, como resultados de lutas nas quais não havia participado”.  Por isso, a importância do partido na luta política e em especial relevo na crise revolucionária. “ Para tomar com segurança e firmeza o poder o proletariado tem a necessidade de um partido superior a todos os demais na clareza do pensamento e na decisão revolucionária. “ ( Trotski, O que foi a Revolução de Outubro.”
A importância do partido na revolução foi ressaltada por Victor Serge
“ as massas tem milhões de rostos; não são nada homogêneas; são dominadas por interesses da classes, diversos e contraditórios; só alcançaram alcançaram a consciência verdadeira- sem a qual nenhuma ação fecunda é possível- mediante a organização.
“ As massas sublevadas da Rússia de 1917 alcançaram a clara consciência da ação necessária , dos meios, dos objetivos a serem atingidos mediante o órgão do partido Bolchevique. Isto aqui não é teoria, é uma expressão de um fato. As relações entre o partido, a classe operaria e as massas trabalhadores aparecem aqui com notável nitidez”. ( Victor Serge, O Ano I da Revolução Russa, p.57)
O Partido Bolchevique apresentou uma perspectiva geral para as massas em movimento (a luta pela conquista do poder próprio pelos trabalhadores) contra todas as variantes conciliadoras ( mencheviques/ socialistas revolucionárias) e confusamente sectárias ( anarquistas, e “ revolucionários de ocasião” sem partido).
Analisando em retrospectiva a intervenção do Partido Bolchevique, chama atenção como foram formuladas corretamente em todas as ocasiões orientações determinantes entre o  fevereiro e outubro de 1917.  Dessa forma, logo após a Revolução de Fevereiro, as correntes conciliadores apoiavam a passagem do poder para as mãos da burguesia, através de “ argumentos” doutrinários ( com a revolução era “burguesa” deveria ser dirigida pela burguesia), levando os sovietes a sustentar o Governo Provisório. Por sua vez, os Bolcheviques, a partir da intervenção incisiva de Lênin em abril, apresentaram duas palavras de ordens: “Nenhum apoio ao governo provisório” e “ Todo poder aos sovietes”, que indicavam o caminho da independência política e de ruptura com as classes dominantes no período denominado de “ dualidade de poderes”.
Além disso, o programa revolucionário era apresentado de maneira efetiva, com a consigna “  Paz, Pão e Terra”, através do qual o Partido Bolchevique incidia sobre as questões cruciais na revolução. Assim, a reivindicação de PAZ indicava a luta contra a continuidade da guerra, conseguindo ao mesmo tempo atacar os interesses imperialistas e estabelecer uma conexão com os interesses da população explorada, em especial os soldados, que morriam como moscas nas trincheiras. A luta pelo PÃO mobilizava o povo, em especial as massas urbanas, contra a fome imposta pelos capitalistas. A TERRA significa colocar em xeque a estrutura agrária arcaica, dominada pela grande propriedade, servindo ainda para aproximar os trabalhadores do imenso movimento camponês ( que era a maioria da população russa).
Será a atuação dos Bolcheviques nas “ jornadas de Julho”, que evitará uma precipitação na tomada do poder, evitando assim uma derrota definitiva em uma semi insurreição.( ver artigo Jornadas de Julho em 1917 na Rússia: os bolcheviques evitam o esmagamento da Revolução ao rejeitar a tomada prematura do poder). Destacando ainda, que foi o Partido Bolchevique que derrotou a tentativa de golpe contra-revolucionário em agosto. Ver artigo A derrota da contrarrevolução de Kornilov em agosto de 1917.
É importante destacar que a atuação política do Partido Bolchevique representou o elemento crucial para a vitória da revolução. De um ponto de vista mais universal, o partido conseguiu estabelecer um fio condutor coerente, na emaranhada conjuntura em 1917, evitando tanto a subordinação aos partidos “democráticos burgueses” em nome da defesa abstrata da “ democracia contra o autoritarismo” quanto a derrota peremptória diante do golpe da contra-revolução, e finalmente não deixando passar o momento propício para  deflagrar a insurreição vitoriosa.
Por Antônio Eduardo Alves - Causa Operária.

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