Por que viver no Brasil está virando um calvário

Por Bepe Damasceno
Em qualquer país civilizado do mundo um atentado contra um ex-presidente da República seria motivo de comoção generalizada e objeto de repúdio por parte das forças políticas e da sociedade. Aqui não são poucos os que põem a culpa na vítima.
O bárbaro assassinato da vereadora Marielle Franco, trucidada por denunciar a violência praticada por agentes do Estado contra negros, pobres e favelados, e a chacina dos jovens de Maricá são retratos sem retoques do Brasil de hoje.
Angustiado com essa sucessão de episódios tenebrosos, perguntei aos meus botões por que estamos nos transformando numa merda de país para se viver. Eles me deram algumas respostas:
1- Porque o sistema de justiça, formado por privilegiados oriundos das classes média e alta, se corrompeu politicamente. O Judiciário mais caro do planeta, além de praticar a ilegalidade de receber acima do teto constitucional, através de penduricalhos indecentes como o auxílio moradia, se esmerou em perseguir políticos e partidos com compromissos populares e proteger os defensores e representantes da elite do atraso.
2- Porque depois que um golpe midiático-judicial-parlamentar entregou o governo da República a uma quadrilha de corruptos, o país mergulhou na anarquia institucional típica dos estados de exceção. Garantias constitucionais pétreas como a presunção de inocência, o respeito ao devido processo legal e a exigência de sentença transitada em julgado para o cidadão ser preso viraram pó. Sem os controles democráticos e republicanos, juízes, procuradores e delegados se sentem à vontade para destruir reputações, cassar a liberdade e até acabar com a vida de seus alvos.
3- Porque o Congresso Nacional de mais baixa extração política e moral da história se limita a carimbar os ataques do governo golpista contra os direitos trabalhistas, previdenciários, sociais, econômicos, políticos e ambientais do povo brasileiro. Suas excelências não hesitam também em aprovar qualquer matéria que implique entrega do petróleo e outras riquezas estratégicas da nação a grupos estrangeiros. Perdoar dívidas de banqueiros e latifundiários é outra especialidade dos atuais deputados e senadores, que, de quebra, estão sempre a postos para encher as burras de dinheiro para salvar da degola o presidente ilegítimo.
4- Porque nenhuma democracia pode merecer este nome se contar com uma mídia tão concentrada, mafiosa, manipuladora, mentirosa e golpista como a nossa. Liderada pela maior inimiga do Brasil e dos brasileiros, a Rede Globo, a imprensa comercial, depois de promover uma sórdida campanha de difamação de Lula, Dilma, PT, outros partidos de esquerda e movimentos sociais, logrou criar uma numerosa matilha de fascistas. Hoje esses descerebrados são uma ameaça real à convivência democrática, jogando o país à beira de uma conflagração de consequências imprevisíveis.
5- Porque a mesquinhez e falta de consciência democrática da elite brasileira não encontram paralelo em nenhum país. O ódio devotado por esses abastados aos pobres, herança dos mais de 300 anos de escravidão, provoca reações políticas antidemocráticas sempre que os de baixo sobem alguns degraus na escala do bem-estar social, como aconteceu durante os governos petistas.
6- Porque a corrupção verdadeira, como nos ensina o professor Jessé Souza em seu livro magistral “A elite do atraso – da escrevidão à Lava Jato” grassa nas grandes corporações financeiras, midiáticas e industriais. E o falso combate à corrupção sempre foi usado pelos endinheirados como arma para impedir avanços sociais e pretexto para romper a ordem democrática.
7- Porque as forças armadas ainda vivem nos tempos da guerra fria e não abandonaram a doutrina de segurança nacional. Por isso, enxergam comunismo até nas lutas mais comezinhas por justiça social, ao mesmo em que são coniventes com a pilhagem do patrimônio do país. Essa mentalidade anacrônica faz com que os militares vejam como inimigos justamente os que lutam por soberania nacional e desenvolvimento, ou seja, a esquerda.

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